Alguém à porta.

 

Alguém bate à porta do quarto e ouço um ensaio de palavras desordenadas, verdes, que são abafadas pela laca maciça de Madeira de Lei. As palavras entram dilatadas e assopradas como letras finas que se expandem em enormes desenhos oníricos pairando no teto. Ainda tenho muitos planos para o dia e os olhos semicerrados. Noto alguma presença de sol, mas estou no topo da montanha e o mercúrio se mantém baixo no termômetro da parede. Um amaecer típico de inverno. As quase-palavras abrem uma fenda no quarto e o vento faz sentir-se embaixo das mantas de linho, atravessa as meias de lã e resseca as narinas. O cômodo de paredes de pedra continua vedado, mas as palavras sempre atravessam. Noto mais luz no ambiente - foram elas, certamente - as palavras sempre descortinam. Encolho as pernas, apoio o joelhos nas costelas e busco conforto na posição fetal. Mas, ainda que eu feche os olhos, as palavras cutucam as minhas costas, lambem as minhas orelhas. As palavras ficam mais duras, mais verdes, acho que alguém fala em alemão e ouço algo sobre vestir-se rápido para que ainda sobrem os melhores queijos do Café da Manhã. As palavras chegam a minha boca, sinto o gosto adocicado do queijo. Experimento o tato da coberta direto na pele, os pêlos são incômodos e quentes, mas os pés continuam empedernidos. Sinto o cheiro de talos e cascalhos queimados na lareira em frente à cama. De novo, elas atravessam naquele chamado de grafias tremidas garranchadas, apartado, pouco compreendido. Me reviro, abro os olhos e me localizo. São elas que me dizem onde estou, agora de modo suave, cantarolado, em letras cursivas. Alguém, do outro lado da porta de Carvalho, sussurra palavras macias e generosos adjetivos. Os lustres de rococó e cachos de cristal pendem no canto da parede, próximo à janela de frisos ondulados e cortinas de renda cor de oliva. Oliva! A palavra desliza em meus ouvidos. Um tom Oliva esmaltado que se reflete em outros verdes, desde o verde amargo escurecido que se lança em outros verdes mais cinzentos, azulados ou amarelados envelhecidos. Meus lábios, já mais soltos, quase repetem. Oliva. Ô viva. Altiva. Ouço alguém que declama uma poesia na porta do quarto. As palavras liberam vôos abertos e revelosos. Atravessam. Incomodam. Descortinam. As palavras entram líquidas, mornas, sorridentes e dizem: Bom Dia, Bom Dia...  



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 13h24
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As regras de João.

 

João, este era seu nome. E sabia disso pois recebia, quando saía de casa, uma enxovalhada de pregações que começavam com o seu nome – ou pelo menos era assim que ouvia. João, seja um homem doutor, essa era a mãe e também a voz mais estridente. É que ele morava em uma vila com muitas casas altas coladas entre paredes coloridas rente à rua sem calçada com numeração desordenada janelas sempre abertas com megafones vizinhos debruçados a repetir e comentar. E todo dia, quando abria o portão de casa, e jogava a mala pesada nas costas, tinha que passar pela ruela, era o único caminho. João, use penas na cabeça. João, plante árvore de dinheiro. João, case com Amelinha. Eram as pessoas pregadas nas janelas altas que davam os recados. Era gente solidária, que gostava de João. E por isso ele tentava dar conta de cada um destes conselhos. E lá estava ele com penas na cabeça, postura de doutor e folhas de dinheiro. E com a mala nas costas, sempre. Recebeu muitos elogios das pessoas das janelas. Os recados continuavam. João seja melhor no xadrez. João, ilustre a cara. João, tenha apenas um filho. Nos anos seguintes, saía de casa cambaleado, não conseguia mais caminhar reto, as orientações pareciam pesadas demais. Imagine um homem carregado de pastas, sob saltos altíssimos, colares de pedras, feição sisuda dos sérios, bolsos cheios de dinheiro, mala nas costas e pena nas cabeça. Era o João, o filho querido mais amado de sua mãe. Desculpe, era o João. Para dar conta de todas estas responsabilidades, recorreu às suas aprendizagens. João, tenha múltiplas competências. Começou a fazer malabares com agenda, mãe, telefone, chefe, espelho, ex-mulher e vício. Não adiantou. Ele não tinha mãos suficientes. O volume de conselhos, modelos e orientações crescia a cada dia. Ele guardava tudo arquivado em pastas, mas este sistema não dava mais conta, estava falido. João, viva em regras. Então, resolveu fazer algumas associações simples para memorizar os tais conselhos. João, use penas na cabeça, as pessoas te admirarão, você gostará da sua imagem no espelho e terá qualquer mulher. João, seja senhor doutor, você terá respeito, ganhará dinheiro, será feliz. João, trabalhe bastante, não descanse, você terá tudo em dobro. Com este sistema de regras, tudo pareceu mais simples. João resolveu segui-las com extrema dedicação. Um dia, João acordou diferente. Não queria carregar aquelas coisas, só queria ir ao trabalho, simplesmente. Mas, achou que ir de mãos abanando não seria exatamente o que as pessoas chamam normal. Causaria estranhamento nos vizinhos das janelas. João, não seja rebelde, cuidado com o castigo. Preferiu tentar outro caminho. Fez meia-volta. Passou em baixo da ponte. Subiu a ladeira. Dobrou a esquina e estava na porta de sua casa. Não tinha jeito. Pegou o seu quite de sobrevivência e jogou sob as costas. Iria, ele iria. João, eduque o seu menino. João, compre uma nave. Uma pergunta inesperada. João, quer cocada de qual sabor? Ele pasmou. Era um menino, no caminho que vendia cocadas. João, quer cocada de qual sabor? Uma pergunta, assim, sem avisar? João, não gostou. Se colocou a pensar. João, não coma doces, eles arruinarão a sua saúde. Respondeu, Não, obrigada. Mas, estou oferecendo, vá, leve algumas. João, não aceite nada de estranhos para não ser enganado. Perguntou, Você quer me ludibriar? É claro que não, quero apenas lhe dar uma cocada. Qual sabor? Penas na cabeça. Estomago vazio. Saúde na meia-idade. Bolo de erva-doce da vovó. Duas bolas de coco queimado do seu Sidnei. Cocada? Simplesmente não sabia. Deu três passos para trás. Deu três toques com a mão fechada na cabeça. Ninguém respondeu. Cambaleou e caiu. Sucumbiu diante do inesperado.

 



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 13h24
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Libertação 

 

E no final, nenhum dos treze títulos adequou-se ao que aconteceu. Como narradora, fui incumbida de criar um novo nome para esta história. Coloquei-me a pensar no que a própria Clarice pensaria. Quanta pretensão. Foi quando alguém interrompeu meu processo de livre-associação, minhas divagações criativas, para fazer uma afirmação ousada, com ares de desafio: Você não é a narradora desta história, todos sabem, é o Rodrigo SM. É certo que se eu não tivesse visto Macabéa pelos olhos de Rodrigo, possivelmente nem a teria visto. Se eu conhecesse a própria, não gostaria. O que me encantou, na verdade, foi a Macabéa de Rodrigo. Sei que enfrentarei esta resistência, afinal ninguém é melhor do que ele com tamanha angústia e compadecimento diante daquela personagem, enaltecida como virgem e maculada. Mas, também sei que Rodrigo não pode mais ser narrador desta história, pois a agonia que o motiva já não existe. Agora Rodrigo é personagem mais do que nunca. E desculpe por usar palavras tão antagônicas na mesma oração, mas é preciso. Ele é Rodrigo, apenas. Não carrega as iniciais S.M., nem os seus significados: SadoMazoquista, Silêncio -Medíocre, Socorro-Mentecapto. Elas foram abandonadas na rua onde mora a cartomante, talvez eu as leve comigo. Mas, não posso antecipar o final. Voltemos ao novo título criado para esta história: “Libertação” e como tudo isso começou.

Macabéa é uma mulher comum, demasiada comum. Nasceu em Alagoas e mudou-se para o Rio de Janeiro onde dividia apartamento com quatro colegas. Trabalhava como datilógrafa, mas não tinha habilidade para isso. Tinha as mãos trêmulas e organização duvidosa o que tornava o resultado do seu trabalho atrapalhado, amassado e sujo. Estas qualidades regiam a sua vida. Não tinha auto-estima e embaralhava as palavras quando falava com as pessoas. Apresentava uma aparência amassada, não as roupas, mas a própria cara, o que despertava estranho desprezo em qualquer um que encarasse a sua imagem. Se comportava de um modo submisso, como quem sempre espera a hora da humilhação. Apesar disso, Macabéa não tinha plena consciência de sua desgraça. Ao contrário disso, era Graça que ela sentia quando ficava sozinha, um sentimento prazeroso e mal-compreendido. A desgraça não era dela, mas de Rodrigo SM. Ele tinha plena consciência de todas as injustiças que cercavam a vida da datilógrafa e era o único que poderia gritar. Mas, ficou calado enquanto os dias passavam para Macabéa, mas a vida não acontecia.

Rodrigo sentiu ciúme quando ela conheceu Olímpico de Jesus. Isso ele não revelou em sua narrativa. Muitas vezes, imaginou ser o nordestino para sentir o tato do corpo gelado de Macabéa. Não queria assumir, mas sentia mais do que caridade, estava apaixonado por ela. Para negar este sentimento, regava a história com características ainda mais mórbidas da personagem, mais desprezíveis do que ela era, do que alguém poderia ser. Ela era feia, mas tinha o quadril avantajado e não franzino como ele costumava dizer. O ciúme foi tanto que ele tomou banho de chuva no dia em que Olímpico terminou o namoro com ela, na mesma água que rolaram as lágrimas da infeliz. Por pouco não decidiu entrar na história de uma vez por todas, mas certa vez escreveu um pequeno bilhete que explica em parte os seus impedimentos. E uma boa meia hora permanecemos assim, olhando as cinzas no cinzeiro, porque eu não tinha como apontar as coisas que me passavam pela cabeça, minha mulher em Londres, as meninas de patins em Ipanema, a risada fina de meu sócio, o olho azul do meu cliente sem pestanas, o homem que escrevia em mulheres, os escritores anônimos em Istambul, as meninas de patins em Ipanema, minha mulher em Londres. Até hoje não sei a história de Rodrigo ao certo, mas por estas palavras me parecia que tinha esposa, filhos, família – o maior dos compromissos.

Com o término do namoro,  Macabéa decidiu procurar uma cartomante para saber se o futuro lhe reservava alguma surpresa já que o presente parecia ignorar a sua existência. Rodrigo sabia que Madame Carlota era uma charlatã que não poderia fazer nada por ela. Macabéa escuta da Cartomante que teria um destino brilhante que viria do estrangeiro. Ela fica muito feliz e realmente acredita nas palavras da mulher. Ao sair da casa da cartomante, ansiosa por uma nova vida, é puxada pela gola da camisa por um homem que a salva de uma Mercedes Bens em alta velocidade na avenida. Apesar do susto, não demonstra sentimento em sua expressão, mas quem está ali já conhece a sua apatia e sabe que o coração de Macabéa devia estar bastante acelerado ainda que na face não houvesse qualquer reação. Era Rodrigo que lhe convida para um café. Normalmente, Macabéa não aceitaria um convite de um desconhecido, mas nota que ele tem olhos verdes, a cor dos olhos de seu amado conforme disse a cartomante. Ela não desobedece às leis da vida e por isso diz sim. Rodrigo se liberta da sua angustia e Macabéa da sua submissão.

Texto elaborado para exercício em Grupo de Escrita Criativa, na Casa so Saber. Trata-se de um conto que transforma o cliímax ou anti-clímax de uma história

conhecida.

 

 



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 13h23
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Sobre geléia de framboesa  

 

- Querido, precisamos conversar.

- Marcinha, tem que ser agora? Você sabe que eu não gosto de roda gigante...

- São nestes momentos que a gente fala francamente.

- Agora entendo sua idéia de vir ao parque.

- Não comece com suas teorias de conspiração.

- Você quer conversar sobre o que aconteceu hoje no Café da Manhã.  Amor, quando me conheceu...

- E você era meu professor, blábláblá.

- Eu já era adepto ao pensamento cartesiano. Eu tenho uma concepção do mundo, sabe, meus julgamentos são fundamentados. Eu não posso mudar assim de opinião.

- Não tente me explicar como se estivesse usando um Data Show.

- Matemático e objetivo: é... veja bem...pois é, não concordo com você.

- Matemático e com medo de roda gigante? Corta essa.

- Não acredita em mim...

- Não, desde que notei que fazia figas durante o juramento em nosso casamento.

- Está começando a subir, vamos deixar isso para depois...

- Quer mudar de assunto, pois sabe que isso é irrefutável, sr. Descartes. Estou preparada para a discussão, tirei nota máxima em suas provas.

- Não entende nada de linguagem corporal, Márcia Cristina. Fazer figas pode significar ansiedade!

- Matemático e apegado em subjetividades, muito complexo este meu marido.

- Você quer me criticar porque não gosta do meu jeito! Não sou tradicional como seu pai: pizza margherita, carro prata e ceroulas de algodão.

- Vai apelar para o Édipo? Se eu fosse tradicional, não teria te conhecido no curso:

“Questionando os grandes paradigmas sob a ótica calculista”. 

- Meus pensamentos estão confusos aqui em cima... Está bem, quando descermos, repenso a minha opinião.

- Se não for agora, quando sairmos daqui, vamos um para cada lado.

- Você quer dizer um para cada brinquedo? Isso não!

- Pois é, professor.

- Olha a altura em que estamos! Como consegue continuar esta discussão?

- Porque sou matemática e objetiva.

- Está bem! Concordo... concordo. A partir de hoje, para o café da manhã, comprarei somente geléia de framboesa.  

 

 

 

 

 

 



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 10h35
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Noite

 Antes, em noites de calor, dançava no escuro com pés descalços a tocar o gelado do chão. Agora, via-se sozinha e pintava as unhas de vermelho para preencher os vazios. Justo ela, esposa de homem trabalhador, dona de casa dedicada, dois filhos. Sentia-se só nessa noite quente.

            Quando moça, gostava de regar os gerânios do quintal para sentir cheio de terra molhada, gostava até de picar cebola para lavar os olhos. Logo ela, que nesse abafado da noite, resignava...

            Estava só e cansada. O trabalho do dia-a-dia, as demandas dos filhos, as meias palavras todo o tempo. Não era completa, nem para os outros, nem para si mesma.

 Ao cobrir as unhas, constatava sua incompletude e rezava a Deus. Não era nada. Nesses anos todos sustentara apenas o ciclo da vida, incansável, repetitivo, sem rastros. Não levantou muros, não construiu castelos, não pôs pedra sobre pedra. Não fora reconhecida, não teve sucesso, nem perguntaram sobre sua vida. Olhos alheios ignoraram suas súplicas, abafaram desejos. Não tinham interesse nela e se tivessem, não saberiam decifrá-la. Tão submersa, tão oculta. Faltou-lhe luz.

 Ela que, sob a Lua, fechava os olhos tão íntimos do escuro. Ela, que nessa noite, calava seu sofrimento com esmalte vermelho nas unhas. 



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 21h49
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Agora, o verão era isso.

 

Será que demora para começar? Eu sabia que não. Bastava sentir o sopro arfante dos ventos quentes na minha nuca. Ele já estava ali, fervilhando a pele livre pelos cabelos presos. Já é verão, mas não parece. Desliguei as luzes e acendi os abajures. Só faltava isso. Olhei calculista fitando cada direção. A louça branca à espera do chá quente. Almofadões macios e mantas de algodão. Uma cesta de bolinhos fritos com canela. O silêncio da madrugada, a casa vazia e livros de suspense da Agatha Christie. Tudo estava exatamente como eu havia planejado. E por que eu não sinto? Era para ser diferente, era para ser verão. Não, não pode ser nada comigo. Afinal, eu sou a mesma? Ainda não estava como deveria. Algo perturbava, mas não era visível. É isso, só pode ser. Era o badulaque funesto do relógio de parede. Enfiei-lhe uma colcha felpuda pelas entranhas. O som ficou abafado, baixinho, como se estivesse aprisionado. Amontoei mais uma enorme quantidade de tecidos para afogar o ruído. Por fim, sufoquei os últimos gemidos de marcação como quem quer parar o tempo. Estava feliz. Que venham as ilusões sem limites. Deixe-me sentir o verão. Mas, o suspiro de vida parecia comprimido entre a esperança da juventude e a conformidade covarde da não realização. Não era para menos, a saudade apertada no peito e as oportunidades esparramadas no chão. Não era possível celebrar o velho sem as possibilidades do porvir. Nada, nem dor. Vivendo a maturidade no seu pleno sentido de última fase da vida. Sem depois, sem utopia. Tirei a manta felpuda do relógio sem conseguir me aconchegar em nenhum lugar macio. Não adianta sufocar-lhe o compasso, ele conta em silêncio. Agora, o verão era isso. Estação em que as noites são claras e abafadas e os dias longos e mais quentes.



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 13h03
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Leve a sua mente a Minas Gerais

 

Os olhos, mareados pelo embalo sinuoso que remonta o seu caminho, não estão fadados da miragem que a cada curva parece tingir-se ainda mais verde. Da seiva das plantas que cobrem os campos, o verde lá é mais verde. O verdor esmaltado da pele lisa da mata fechada ganha tons auriverdes nos secos arbustos esparsos do cerrado. Lá, o verde são todos os verdes, desde o verde amargo escurecido que se lança em outros verdes mais cinzentos, azulados ou amarelados que reluzem do espectro. Reverdece qualquer mente que mira a paisagem verdejante das suas paisagens mil.

Dos morros e montes sustentados pelas pedreiras, ancoram-se cidades que crescem, a começar pela praça da igreja, até os limites que o destino mandar, não à mercê da própria sorte, mas à sorte de cada história. Uma sorte com dois sentidos. São adornadas por vales, cumes, canastras e mantiqueiras que, apesar de estarem nuas de suas pedrarias, muito têm o que mostrar. Abriga inúmeras cidadelas onde é comum ver o povo aguardar ansioso a celebração da Folia de Reis. Fantasiados, saem às ruas para cantar e personificar Melchior, Baltazar e Gaspar – os três reis magos, a celebrar o filho de Deus. Lá, as horas vivem o presente e se entregam vagarosas para permanecerem mais um pouquinho. Elas resistem ao movimento e se alargam para que o sol se convença a ficar. Por isso, os dias são mais longos, há uma calma permanente e tem-se a sensação de que o tempo se demora a passar. Talvez por isso, lá seja o berço das almas criativas que desenham poesias, canções, tudo quanto é arte a expressar.

Se adentra às entranhas, quase secretas, de tais cidades, descobrem-se novas cidades a dentro, as quais são contadas através das histórias. Nada se tem escrito e pouco se viu, mas os contos destes lugares são como monumentos – exemplos para as novas gerações e memória de episódios notáveis que ali aconteceram. Sim, tudo quanto é oculto já sucedeu por lá, inclusive a origem de crenças e simpatias. O folclore se estende a cada pedra que se dispõe a cavoucar além do limite. Não dá para dizer que é assim, pois não é, é mais do que isto. Tem também o pão de queijo. Tem também o cheiro, coisa que não se explica. Contudo, qualquer mente que lançar-se sob o pleno verde das suas gramíneas tímidas vai sentir-se reverdecida – bem vinda - vai saber que está em Minas.  



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 13h02
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Futebol, cerveja e Aninha.

Aninha se deita no sofá com os pés para o alto e faz cara de quem entende, ou melhor, não entende do assunto. Seu genuíno amor por Artur, namorado recente, é demonstrado pelo interesse, também genuíno, por tudo o que ele tem a dizer.
- O que é mesmo essa tal de apoptose, Tur?
- É um tipo de morte voluntária das células, serve para manter o equilíbrio dos organismos vivos.
- Nossa, que horror, um suicídio?
- Acho que você pode entender dessa forma, Ana.
Ele toma mais um gole da cerveja e liga a T.V. Artur é pragmático, quase trinta anos, apaixonado por futebol e ciências biológicas.
- E o Palmeiras, Tur, está em que colocação?
-
Em quarto.
- Qual o campeonato, mesmo?
Artur com cara de espanto.
- Brasileiro, Ana Amália!
Ele pega uma azeitona chilena para acompanhar a cerveja e, empolgado, dá um grito:
- Goool, goool!!!
- Do Verdão?
- Não, do Vitória. Mancini está realizado com esse gol contra o Grêmio.
- Mancini?
- Vagner Mancini, foi demitido do Grêmio injustamente e agora é técnico do Leão. 
Aninha não entendeu por que discutiam a vitória do Vitória se o que interessava era o quarto lugar do Palmeiras no Brasileirão. Quis mudar de assunto.

- Você gostou do vestido que comprei ontem?
- Gostei, mas sabe que não ligo para roupas.
- Chato.
Tentou de novo.
- Reparou que fiz banho de creme nos cabelos?
- Se cabelo fosse importante, Ana Amália, ficava dentro e não fora da cabeça.

Ela fingiu desinteresse pelos comentários sem precedentes do namorado. Ele que só pensava em apoplexia, ácido desoxirribonucléico, ciclo de Krebs e Palmeiras. 

Artur ouviu o silêncio da namorada. Concordou comigo, pensou satisfeito. Sentiu orgulho. Orgulho da cerveja gelada, do Palmeiras, de Vagner Mancini. Orgulho de Aninha deslumbrante no sofá. Olhou para ela e disse, resignado:

- Está linda, Aninha.

Ela pegou uma azeitona chilena, mostrou interesse novamente e fez cara de desentendida.

- Linda? Como assim?

 

 



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 19h39
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Arendt e alguns pensamentos.


Quando minha mãe viu a capa do livro, comentou de forma descontraída “Dona Arendt, você não devia fumar tanto assim...”.
Hannah Arendt é uma pensadora da contemporaneidade. Nascida na mesma cidade de Kant, presenciou a barbárie da perseguição e do preconceito contra os judeus durante a 2º Grande Guerra. Conseguiu escapar da Alemanha, fugindo para Paris e, depois, morou um período nos Estados Unidos. Elaborou sua teoria como forma de dar sentido à aparente falta de sentido da violência e ideologias totalitárias. E fez isso com maestria. Arendt trata das principais questões modernas com a complexidade de que precisam ser tratadas, mas o que mais me encanta em seu pensamento é a forma como acredita nas ações humanas para a continuidade do mundo.
A singularidade do ser humano aparece através de suas ações e palavras que são irreversíveis. No campo da ação e da pluralidade há sempre o espaço para o inesperado. E é por isso que toda ação humana tem como características fundamentais a imprevisibilidade e a irreversibilidade. Arendt parte dessa premissa para falar sobre a promessa e o perdão.
A promessa é nada mais que um acordo feito pelos homens para tentar ordenar o futuro. É uma forma de segurança, ante a imprevisibilidade dos fatos. E o perdão é o reconhecimento do caráter irreversível das ações. Sendo as ações irreversíveis, deve-se perdoar ( ou não ) quem as realizou. Porém, o perdão deve ser dado por “quem você é” e não “pelo que você é”. Explico melhor. O perdão deve ser dado à pessoa (perdôo você porque sei quem você é e entendo seu deslize) e não pelo que ela é ( perdôo você porque é meu chefe ou por causa dos filhos ou porque tem dinheiro).
O objeto central dos estudos de Arendt é o espaço público e político. Porém, ao ler seus textos, não deixei de pensar em minha vida pessoal e nos relacionamentos.
Será que, atualmente, está mais difícil prometer e perdoar? Será que compreendemos o quanto a promessa é importante para nos trazer segurança? Não estou defendendo a promessa religiosa do casamento. Estou ressaltando a necessidade da palavra e do acordo em um relacionamento ( seja namoro, casamento, amizade).
Precisamos saber da promessa da fidelidade, por exemplo. Precisamos saber que o outro está disposto a mantê-la, apesar da imprevisibilidade da vida. A palavra traz um tipo de amparo que evita certas neuroses e que traz uma tranqüilidade necessária para a confiança. Já ouvi muitas pessoas dizerem que não precisam falar que serão fiéis ou que gostam do parceiro. Eu acho que precisam sim, pois falar a uma pessoa (desde que não banalize a situação) é uma forma de se responsabilizar por ela, é um comprometimento.
Se, apesar da promessa, o outro errar, há ainda espaço para o perdão. Não acho que deva ser usado em toda e qualquer circunstância, mas acredito que é essencial em um relacionamento que pretende ser duradouro. Pensando ainda nas reflexões de Arendt, é através do perdão que humanizamos o outro ao admitir sua imprevisibilidade.



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 11h29
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Sobre descascar Laranjas

 

Quando sinto cheiro de laranjas ácidas me lembro da minha infância, mais precisamente do meu pai. A imagem intacta é zelada na minha lembrança: ele, todo prosa, sentado no sofá com uma bacia cheia de laranjas firmes de cascas verdes. Todo dia, no final da tarde, quando as ruas ficam movimentadas pelo burburinho das pessoas voltando do trabalho, nós nos reuníamos em torno dele. Era gostoso sentir o aroma de comida caseira e ouvir o bater dos talheres e pratos anunciando a hora do jantar pelos andares do prédio. A sensação de chegar em casa e o gozo do descanso contagiavam o momento.

O ritual estava pronto para começar. Ele pegava as laranjas nas mãos, uma a uma, e girava amaciando a casca com os dedos. A faca deveria estar afiada. A fruta madura, no ponto certo. Com o movimento caprichoso, começava a descascá-las. O cuidado certeiro desfiava a casca em caracóis que se desdobravam inteiros. Na minha pequena imaginação, imitavam formas espaciais, contornos de rios, divertidos desenhos. A laranja tornava-se branca, imaculada, sem nenhum machucado. Cortar os pedaços era mais uma brincadeira. Cubinhos. Pétalas de flores. Tampinha. Ficávamos atentas, sentadas aos pés do meu pai, para assistir àquele trabalho primoroso. Dividíamos os bocados e pedíamos bis. Mais de dúzia de laranjas eram descascadas e servidas como enfeites.

Ainda sinto o cheiro de laranjas ácidas que adornam a minha fruteira. Contudo, nunca mais descasquei uma laranja sequer. Na verdade, faz muitos anos que não vejo ninguém descascar uma laranja. Talvez, desde a infância. Meus amigos não sabem faze-lo. Eu também não sei. As novas gerações menos ainda. É o tipo de tarefa que perdeu o valor completamente. Foi substituída pelas máquinas de suco. Foi ignorada pela correria do tempo. Foi suprimida pela falta de paciência. Agora, a moda é cortar a laranja em quatro. Na boca, sobra o gosto amargo de quem tira a casca pela metade e come pelo lado do avesso. 



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 14h02
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Você tem foto de quê?

 

Hoje em dia é preciso aparecer, mas não somente com o corpo malhado e a pele boa. Seus momentos mais íntimos, mais fugazes, aqueles momentos sem palavras, devem ser palpáveis para existir. Não basta ir para a praia, é necessário ser fotografada com caras e bocas sobre a areia, para que isso tenha algum valor. Antigamente, nossas ações viravam história, hoje, viram fotos, objetos, vídeos. É a oposição entre causo e coisa.

Uma grande amiga conta que ficou estarrecida no dia em que resolveu ir caminhar no parque com duas primas. Colocou o tênis de correr, uma legging e foi para o Ibirapuera com a melhor das intenções de fazer uma caminhada e tomar um solzinho. Chegando lá, se surpreendeu ao ver que suas primas tiravam fotos de todo e qualquer movimento delas. A cada dois passos, um “clic”. Minha amiga ficou bravíssima e, algumas horas depois, foi embora com pouco sol e muita foto. Se não bastasse, no dia seguinte, as primas colocaram todas as fotos no álbum do Orkut, para mostrar aos espectadores o grande evento. Nas fotos, estavam lindas, riam, tinham amigas, cabelos ao vento.

Mas não é só a internet que serve de vitrine para a vida. A escola tem um pouco disso. A moda da “pedagogia de projetos” pede que o ensino e a aprendizagem, mais do que tudo, sejam mostrados através de imagens e coisas. As inúmeras fotos dos “processos”, os infindáveis projetos palpáveis das crianças são um prato cheio para pais ansiosos que precisam de garantias. Toda escola que se preze tem uma super mostra, que é também uma maneira de dar satisfação (aos pais) a respeito do trabalho do professor. Quanto mais elaborado o trabalho, quanto mais esplêndida a apresentação,  melhor o professor. Nos bastidores do show, talvez existam professores competitivos, mais preocupados em como o trabalho aparece do que como o trabalho acontece. Cabe perguntar se tudo isso não é só para “inglês ver”?

Não tenho dúvida de que a apresentação dos trabalhos dos alunos (e não dos professores) é uma boa maneira de incentivo e reconhecimento, mas isso deve ter limites, porque educação não é espetáculo. Talvez, a melhor maneira de verificar se alguém aprendeu algo que foi ensinado, ainda seja pela demonstração coerente das idéias ou pelo simples fato de saber fazer. O mérito do professor deve ser medido por isso, e não de outra maneira.



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 14h55
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O QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA SER UM PEDAGOGO MODERNO.


SOBRE A CRIANÇA

1. A criança não aprende conteúdos, ela constrói conhecimento.

2. A criança não aprende a herança cultural construída pela sociedade, ela é inserida no mundo ( que mundo?)

3. A criança não tem bagagem cultural, ela tem conhecimento prévio.

4. A criança não erra, ela “está em processo”.

5. A criança não desenha, ela faz uma ilustração.



SOBRE O PROFESSOR

1. O professor não trabalha com compromisso, seriedade e respeito, ele trabalha com AMOR, CARINHO E AFETO.

2. O professor não aplica provas, ele faz avaliações.

3. O professor não ensina, ele é agente facilitador no processo de desenvolvimento cognitivo-motor-afetivo-moral da criança.

4. O professor deve fingir que sabe o que é o processo cognitivo-motor-afetivo-moral da criança ( na prática).

5. O professor deve saber que se um aluno não aprendeu algo, é porque o seu processo cognitivo-motor-afetivo-moral falhou. Sendo assim, o professor deve contar com o auxílio de alguns profissionais: psicopedagogo ou fonoaudiólogo ou neurologista ou psicólogo ou terapeuta holístico ou pai-de-santo.


VOCABULÁRIO INDISPENSÁVEL

1. “Beber de várias fontes”: expressão básica para indicar que você leu vários autores.

2. “Ter um olhar”: expressão que significar analisar ou refletir sobre algo.

3. “”Mundo da criança”: palavra-chave quando você quer falar bonito, mas não sabe muito bem o que dizer.

4. “Lúdico”: se refere a qualquer coisa que dê prazer ( pode ser uma brincadeira, um jogo, aula, um sorvete, etc)

5. “Intervir”: ensinar, educar.

6. “Educando/Aprendiz”: aluno.

7. “Crepusculário”: desculpe-me leitor, mas após dois anos de formada, ainda não sei o que isso significa.



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 22h53
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Excesso

Não optarei por qual das metades.

Eu quero o copo cheio!

Não quero parcimônia

cerimônia, indício de razão sensata.

Quero o leite com a nata!

Quero o repente, gesto impensado, ato impulsivo.

Quero a palavra trocada que provoca o riso.

Quero a dose inteira, exata.

Quero amor de medicina alopata ( com efeitos colaterais).

Quero conversas banais,

voz rouca

som alto

corpo inteiro.

Viver com amor e com dinheiro.

Quero respostas simples, muitas perguntas complexas.

Quero cores, flores, serestas...

Quero o excesso.

Não me venha com a prudência do meio.

Eu quero o copo cheio!

 

 



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 08h45
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Para sair do mundo finito

 

Indescritível visto de cima. Giro o globo com a ajuda dos avanços da tecnologia. Oceano infinito, ao centro uma pequena ilha. Pessoas sempre por ali, por qualquer lugar por onde eu possa ir. E com certeza, eu já esperava: linhas estilizadas, pedras esculpidas. Acesso. Experimentar a solidão das cavernas, famosas vielas, cidades antigas e paisagens perdidas. Das condenações do mar de cabeças no inferno de Dante à plenitude do Paraíso. O acesso aos mundos contidos nos livros. Imagens dos quatro cantos no passe de um clique. Receitas francesas. Encontros de línguas. Aprender com o outro.  Conhecimento. Interessar-se. Ouvir. Quantos são os mundos criados dentro das nossas cabeças.

Talvez seja por isso a minha agonia. Liberdade cedida para pouco encorajamento. Tudo pode ser literalmente. Inundados de possibilidade repetimos comportamentos. E a perturbadora frase dita por uma amiga ecoa em minha cabeça: esta é a minha vida, o que posso fazer de melhor é ter uma existência autentica. É muito cedo para ter esta sensação, disse a minha terapeuta. Mas, a cada dia eu tenho mais consciência da mortalidade. Vejo o tempo passar rápido, escapar entre as manhãs frias, entre os toques do despertador, a cada Bom Domingo. E agora José? A vida adulta parece mais uma caçada à sobrevivência. E, neste momento de plena autonomia, dá sono, dá preguiça, dá medo. Uma mesquinhez de sentimento. O mundo é muito grande, mas preferimos ficar salvos em só um pedacinho dele. Num pedacinho de terra. Num pedacinho de expectativas. Num pedacinho de relacionamentos.   



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 00h47
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DESAPONTAMENTO

 

Machado de Assis não teve filhos, assim como seu ilustre Brás Cubas. Ambos não deixaram descendentes para desfrutarem das misérias humanas. Esse pensamento me marcou muito, pois li o livro na mesma época em que ouvi minha tia Noemi dizer, com um pessimismo fervoroso, que era melhor que todos os casais no mundo parassem de ter filhos, pois não valia a pena. Naquele momento não entendi, talvez porque tivesse treze ou catorze anos. Hoje entendo. Mesmo. Ainda quero muito ter filhos, mas simplesmente compreendo o porquê dessas afirmações tão categóricas e ao mesmo tempo tão lúcidas.

Mas para ter filhos, mudaria para Pasárgada talvez. Mudaria para junto da música de Zé Rodrix, mudaria para longe. Ficaria aqui, somente se comprovassem que tudo o que vejo nos meios de comunicação são apenas notícias e que notícias são assim mesmo, mostram o desastre, a tragédia, apelam para o desumano.

Mas também seria correto afastar-me dessas informações e desconhecer que o Brasil é um país falido politicamente e socialmente, mas em plena ascensão econômica? Seria correto deixar de reconhecer que o brasileiro tem uma tendência para a corrupção e que isso não é causa de nossa colonização? Seria certo fechar os olhos para a ilusão de que melhorar de vida é ter um carro novo? E falar mal do trânsito e do aquecimento global é ter opinião ( sentado no banco confortável do carro novo)?

 Será que eu me sentiria melhor se não soubesse dos três meninos pobres e pretos que foram covardemente assassinados no Morro da Providência? Será que me sentiria mais confortável se fingisse não saber sobre o assassinato do menino de 3 anos pela polícia militar? Será que me sentiria mais feliz sabendo que o Rio de Janeiro é lindo e que também é longe? Talvez.

Mas a realidade veio através das notícias e de alguma maneira tenho que lidar com isso. Talvez com um sentimento de indignação e desapontamento, o mesmo que tinha Machado e minha querida tia.



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 21h14
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 26 a 35 anos


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