Excesso
Não optarei por qual das metades.
Eu quero o copo cheio!
Não quero parcimônia
cerimônia, indício de razão sensata.
Quero o leite com a nata!
Quero o repente, gesto impensado, ato impulsivo.
Quero a palavra trocada que provoca o riso.
Quero a dose inteira, exata.
Quero amor de medicina alopata ( com efeitos colaterais).
Quero conversas banais,
voz rouca
som alto
corpo inteiro.
Viver com amor e com dinheiro.
Quero respostas simples, muitas perguntas complexas.
Quero cores, flores, serestas...
Quero o excesso.
Não me venha com a prudência do meio.
Eu quero o copo cheio!
Para sair do mundo finito
Indescritível visto de cima. Giro o globo com a ajuda dos avanços da tecnologia. Oceano infinito, ao centro uma pequena ilha. Pessoas sempre por ali, por qualquer lugar por onde eu possa ir. E com certeza, eu já esperava: linhas estilizadas, pedras esculpidas. Acesso. Experimentar a solidão das cavernas, famosas vielas, cidades antigas e paisagens perdidas. Das condenações do mar de cabeças no inferno de Dante à plenitude do Paraíso. O acesso aos mundos contidos nos livros. Imagens dos quatro cantos no passe de um clique. Receitas francesas. Encontros de línguas. Aprender com o outro. Conhecimento. Interessar-se. Ouvir. Quantos são os mundos criados dentro das nossas cabeças.
Talvez seja por isso a minha agonia. Liberdade cedida para pouco encorajamento. Tudo pode ser literalmente. Inundados de possibilidade repetimos comportamentos. E a perturbadora frase dita por uma amiga ecoa em minha cabeça: esta é a minha vida, o que posso fazer de melhor é ter uma existência autentica. É muito cedo para ter esta sensação, disse a minha terapeuta. Mas, a cada dia eu tenho mais consciência da mortalidade. Vejo o tempo passar rápido, escapar entre as manhãs frias, entre os toques do despertador, a cada Bom Domingo. E agora José? A vida adulta parece mais uma caçada à sobrevivência. E, neste momento de plena autonomia, dá sono, dá preguiça, dá medo. Uma mesquinhez de sentimento. O mundo é muito grande, mas preferimos ficar salvos em só um pedacinho dele. Num pedacinho de terra. Num pedacinho de expectativas. Num pedacinho de relacionamentos.
DESAPONTAMENTO
Machado de Assis não teve filhos, assim como seu ilustre Brás Cubas. Ambos não deixaram descendentes para desfrutarem das misérias humanas. Esse pensamento me marcou muito, pois li o livro na mesma época em que ouvi minha tia Noemi dizer, com um pessimismo fervoroso, que era melhor que todos os casais no mundo parassem de ter filhos, pois não valia a pena. Naquele momento não entendi, talvez porque tivesse treze ou catorze anos. Hoje entendo. Mesmo. Ainda quero muito ter filhos, mas simplesmente compreendo o porquê dessas afirmações tão categóricas e ao mesmo tempo tão lúcidas.
Mas para ter filhos, mudaria para Pasárgada talvez. Mudaria para junto da música de Zé Rodrix, mudaria para longe. Ficaria aqui, somente se comprovassem que tudo o que vejo nos meios de comunicação são apenas notícias e que notícias são assim mesmo, mostram o desastre, a tragédia, apelam para o desumano.
Mas também seria correto afastar-me dessas informações e desconhecer que o Brasil é um país falido politicamente e socialmente, mas em plena ascensão econômica? Seria correto deixar de reconhecer que o brasileiro tem uma tendência para a corrupção e que isso não é causa de nossa colonização? Seria certo fechar os olhos para a ilusão de que melhorar de vida é ter um carro novo? E falar mal do trânsito e do aquecimento global é ter opinião ( sentado no banco confortável do carro novo)?
Será que eu me sentiria melhor se não soubesse dos três meninos pobres e pretos que foram covardemente assassinados no Morro da Providência? Será que me sentiria mais confortável se fingisse não saber sobre o assassinato do menino de 3 anos pela polícia militar? Será que me sentiria mais feliz sabendo que o Rio de Janeiro é lindo e que também é longe? Talvez.
Mas a realidade veio através das notícias e de alguma maneira tenho que lidar com isso. Talvez com um sentimento de indignação e desapontamento, o mesmo que tinha Machado e minha querida tia.
PÉ DE QUEM?
O PEITO DO PÉ DO PEDRO É PRETO
ASSIM FÁCIL DE RIMAR
É TRADIÇÃO POPULAR
ENTÃO ENSINE A CRIANÇADA:
A PALAVRA PELO TEXTO- ALFABETO NO CONTEXTO
MAS DÁ PARA ENSINAR?
QUE A SOLA DO PÉ
NÃO SÓ DO PEDRO, MAS DO JOSÉS
É PRETA?
PRETA DO PÓ PRETO DA TRAGÉDIA POPULAR
PÓ DE POLUIÇÃO
PÓ DA POPULAÇÃO
PEITO DO PÉ DO POBRE
SOLA DO PÉ DO PRETO
DO BRANCO.
DO JOÃO, DOS JOSÉS
SOLA DA GENTE SÓ
QUE DORME NA CALÇADA DOS MORTOS
SEM CALÇADO NO PÉ
A árvore caída.
Voltava para casa com os sapatos molhados e o guarda-chuva capenga, que mais parecia um adereço velho do que um instrumento com utilidade. Todas as noites, faço o mesmo caminho, e a paisagem que vejo quase sempre é igual. Ontem foi diferente. Em uma das principais esquinas do meu bairro, vi um aglomerado de gente conversando sobre o acontecimento que eu ainda não tinha percebido.
Cheguei mais perto da cena e coloquei meus óculos para ver o objeto que todos estavam ao redor. Primeiro vi o tronco, que parecia um tapete aveludado, para então fitar a árvore inteira. Estava lá, preponderante, impávida, imensa, esparramada no encontro das ruas, um belo corpo rente ao chão.
As pessoas se agregaram para entender como uma árvore daquele tamanho poderia estatelar no meio da rua. Pessoas que tomaram os lugares dos carros no asfalto. Indignadas, algumas falaram do estrago que o acidente tinha causado: trânsito, carros amassados, falta de luz nos prédios do bairro. Mas aproveitaram para conversar dos problemas do condomínio, do preço do pãozinho, dos cocôs dos cachorros na calçada, da qualidade dos colégios, da falta de iniciativa da prefeitura. Perguntaram também em qual prédio moravam, se iam ao parque, o que faziam aos sábados. E entre um assunto e outro, olhavam novamente para a árvore com expressão de espanto.
Não foi somente o estrago e a explosão nos fios elétricos que mostraram a força da árvore caída. Naquela situação inusitada, as pessoas se aproximaram e a ocasião permitiu a possibilidade do encontro de vidas tão desencontradas. O estranho corpo caído no chão, uniu por instantes os moradores do bairro, possibilitou o convívio e a sensação de viver para um bem comum.
A Roda da Sorte
Ganhei um livro de um escritor famoso com 101 maneiras de alcançar o sucesso. Pulei as primeiras páginas destinadas ao relato de todas aquelas pessoas endividadas que agora tem carros importados e casas de um milhão. Esperei que o segundo capítulo fosse menos chato do que este.
Reuni todas as minhas revistas, cartolina, cola, tesoura e caneta. Até ali, tudo corria bem. Coloca viagens, cola carro, recorta academia, encontra casa, encaixa meditação, destaca romance. Este ano prometo ler mais, montar a minha biblioteca, comprar uma bicicleta, aprender a cozinhar.
Quando me dei conta, a minha roda da sorte estava cheia, abarrotada e eu ainda tinha um bolo de imagens para colocar. Será que eu tinha feito alguma coisa errada? As rodas da sorte que eu já tinha visto eram tão compactas. Olhei o livro, reli as instruções. O problema era mesmo comigo.
Então, tentei tirar o que eu não desejava tanto. Mas, era tão difícil. Comecei a contar os meses do ano. Será que daria tempo de realizar tudo aquilo? Mesmo durante a semana, como posso cursar inglês, francês, meditar, fazer academia e ler livros? Neste momento me senti completamente atrasada, ainda tinha tanto para fazer. Era só olhar a minha agenda da maturidade. Eu empresária. Eu escritora. Eu mãe. Eu tomando chá verde. Eu no Caribe. Então me veio na cabeça uma velha idéia de que o ano é um período curto de tempo. Pode ver, no Reveillon, as pessoas ficam dizendo que o ano passou rápido. Mas, quem disse que era para ter passado devagar? O ano é assim mesmo, passa rapidinho. Isso me leva a uma conseqüência triste: então a vida é toda rapidinha... Se é assim, vou terminando por aqui, tenho que correr para realizar todas aquelas imagens que colei para mim...
Outra
Chove do outro lado da janela da sala
não pára de chover nem por um momento
E se assim fosse
todos meus tormentos
também parariam de pensar na vida
Chove...
e a chuva me traz um tipo de tristezinha
que só sei definir assim.
Talvez seja melancolia
de saber que minha própria matéria
representa o transitório
o passar dos dias.
Melancolia boa que surge pois
posso segurar tudo,
menos o tempo.
E a cada hora que me escapa
eu que sei que não sei nada
sou cada vez mais certa
de que tenho que estar em cada instante
viva de alma e inteira de corpo
completa.
Poesia
A tecnologia invadiu minha´lma e
transformou em metal a calma
que lá existia sem dor.
Tenho senhas que guardam tantas informações
que até esqueço...Tenho tanta segurança contra o medo.
Sou protegida como cofre de banco.
Cofre à prova de invasões, descobertas, opressões.
A carne é meu pedaço único de natureza
As sensações momentâneas
inebriam minha tristeza de ser...
ficha, número, segmento
Resultado acabado de sucesso ou fracasso
O que represento?
Sou classificação.
Consumidora voraz.
Para minha humanidade não há espaço.
O maestro
Quando estava na quinta ou sexta série já observava os tipos que formavam minha classe. Os que sentavam na primeira carteira, faziam todas as tarefas, eram muito disciplinados e silenciosos, os do fundo, conversavam, transgrediam e eram adoráveis. Havia os que não faziam nada e ainda desrespeitavam aquele adulto que estava lá na frente e que tinha algo a dizer. E lá na escola, convivendo entre esses grupos, aprendíamos também a viver em sociedade, a lidar com as diferenças. E justamente por ser uma fase de aprendizado, as atitudes e posturas nem sempre eram notáveis. Lembro-me que eu tinha um grupinho de amigas e às vezes falávamos mal umas das outras, ou julgávamos alguma atitude que estava fora das características do grupo. Lembro-me daqueles que puxavam saco do professor, dos que delatavam outros alunos, daqueles que fofocavam, dos que subjugavam, dos que davam apelidos que estigmatizavam. Pois bem, cresci e agora convivo no mundo dos adultos e ainda tenho o hábito de observar como as pessoas se relacionam. No caso, o “objeto de pesquisa” foi a empresa em que trabalho. Constatei, sem qualquer desilusão, que as pessoas ainda agem como se fossem adolescentes, em relações imaturas que não contribuem em nada para um maior profissionalismo no trabalho. Ainda existe o puxa-saco, os que fofocam, os apelidos, as brincadeiras fora de hora, o descompromisso. Ainda existem aqueles que não estudaram para a prova e que dependem de outros para tirar nota, pois não tiveram a capacidade nem de fazer a própria cola. E tudo isso com novos ingredientes que tornam a situação um pouco mais complexa, como prestígio, vaidade e poder. Acho que muitas pessoas ainda confundem seriedade com sisudez, bom humor com bagunça, organização com caretice. Em uma das reuniões do departamento, ouvi de um superior que nosso trabalho é caótico e que isso é bom. Não entendi como um departamento caótico pode ser bom, como a falta de gerenciamento de pessoas pode dar resultados concretos. Pensei no maestro e em sua orquestra. O maestro é aquele que conduz músicos tão diferentes para tornar a música graciosa. Cada músico tem sua própria partitura, seu próprio talento, mas precisa olhar para o maestro para não se perder, para estar no mesmo compasso que os outros. O maestro é aquele que dá a unidade à orquestra, fazendo com que partituras de instrumentos tão diferentes estejam no mesmo ritmo, na mesma sintonia. É aquele que aproveita as particularidades de cada artista para melhorar o principal objetivo que é a boa música. E é só com muito estudo, organização e método que isso pode acontecer. Se esse processo fosse caótico, não haveria melodia, harmonia, seria um descompasso só. Seria uma junção de sons. Não haveria música.
Texto sem sentido
Sento, respiro e olho ao redor da sala. Os móveis ainda estão lá, os quadros continuam tortos e desconexos, a piano permanece fechado, as plantas precisam de água. O silêncio da sala é minha única companhia, e gosto que seja assim. Acendo o abajur que aconchega o final da tarde, não penso em ligar a tv, deixo o telefone longe, não atenderei se porventura tocar.
E sozinha consigo sentir uma sensação boa de estar comigo mesma e com mais ninguém. E ainda estou me acostumando com essa maneira de ser. Parece que é auto suficiência, mas não é. E não sei o que é. É talvez uma menor dependência dos outros e dos pensamentos dos outros. A verdade é que não quero perder tempo com a vida de ninguém, nem com as escolhas de ninguém, se tenho tantas outras coisas para pensar, para fazer.
Poderia tentar inventar um plano, fazer um projeto, sonhar junto. Não consigo mais. Parece que o presente é o único tempo que existe. Parece que essa sala é o único espaço que existe. Tomara que não seja interrompida por ninguém. Não responderia a perguntas, hoje não quero demandas, quero ficar sentada no sofá e somente isso.
Piaf
Ontem vi “Piaf” com a companhia mais agradável que poderia ter. Fizemos o trajeto de costume, paramos no estacionamento de sempre, mais barato e próximo ao Espaço Unibanco. O final de tarde estava muito bom, rua cheia de gente, calçadas repletas de grupos com muito assunto, sanduíche de pernil e cerveja. Compramos o ingresso minutos antes de começar, tomei um café e ele comeu pão de queijo. Adorei o filme, não conhecia a vida de Piaf e confesso que nem mesmo suas canções. Ouvi a primeira vez, quando meu pai me mostrou encantado “La Vie en Rose” direto do Limewire.
Ela teve uma vida difícil, trágica, com perdas importantes que determinaram sua trajetória. Caso em que sofrimentos e privações se transformam em criatividade, em arte. O filme foi um bom começo para conhecer melhor sua obra e para saber mais sobre sua vida. Semana passada estava pensando o que é ser autêntico, posso dizer que Piaf foi.
Ir ao cinema foi uma parte deliciosa do meu domingo que passou devagar e ensolarado. E Piaf foi um pretexto bom para lembrar do meu pai e de sua grande influência na minha vida. E se coincidências existem, não posso deixar de dizer que Piaf quer dizer “Pardal” (acabei de lembrar disso!!!) , apelido dele.
( Pai, se estiver lendo esse texto, saiba que estou com saudades!!!)
Liberdade
Na realidade, tudo era medo de sentir prazer. Eu olhei para o canto da janela e vi os pássaros de pano voando e espantado os maus espíritos. Foi um minuto de meditação. O calor que me faz voltar à infância me fez sentir bem. Eu estou aqui, com acesso às imagens que instigam minha mente e com o tempo que posso, um pouco, controlar. Eu estou em casa e no final da tarde vou fazer um chá de camomila e um bolo de maçã. Posso sentir o tempo e agora as horas passam devagar. Não tão vagarosas ao ponto de me entediar, mas no ritmo singelo para eu sentir que estou viva no meio do dia. Se quiser, brinco com o bicho que passa entre as pernas, escrevo um conto de fadas, estudo sobre as pirâmides do Egito. Tenho cuidado muito das flores, todos os dias rego e as coloco no sol. Penso nas pessoas que amo e curto a sensação de gratidão e aconchego. Tudo isso, eu posso, se conseguir me libertar do confinamento que prende o dia, determina histórias e manda no pensamento.
Todo dia
O primeiro sinal é a brisa fria. Sinto o cheiro suave da poeira noturna. A neblina gelada dança sob o céu, toma o asfalto das ruas, por entre os carros, atrás dos lixos, em baixo das pontes e clareia, imacula a tensão da madrugada. Contorna meus pés, pernas. Esfria a barriga. Sobe ao peito. Ouço os barulhos vibrantes do bate-estaca das construções ao meu redor. São os primeiros indícios de um novo amanhecer. Neste momento, quando a vida não está clara nem escura, eu sinto frio. Puxo a coberta, me enrolo, estremeço. Não é como um colo materno aquecido. É um frio que não vem de fora pra dentro. Penso no olhar confidente das pessoas queridas, na voz balbuciada que ainda não são palavras da minha pequena. Talvez o frio seja o medo de convencer o tempo em me deixar por aqui mais um dia. O frio que paralisa as tentativas de enfrentar o desconhecido. Amarra as pernas e a coragem, ou a única saída, em achar que é assim mesmo. Quando os primeiros raios de sol esquentam o vidro, ouço estalos, os objetos também se rendem ao ciclo, tudo faz parte dele. Coloco roupas mais quentes e finjo que isso deve resolver, saio da cama, encaro a vida, e sigo com as minhas dúvidas, culpas e preces como deve ser.. .
Como esperar uma criança...
Ela me contou que sua mãe estava apreensiva com a chegada da primeira neta. Mais uma mulher, numa casa só de mulheres. Sua irmã estava de nove meses e esperava a dilatação aumentar para ter o bebê de parto normal.
No dia que souberam que seria menina, ficaram muito contentes, pois na verdade achavam que não saberiam lidar com um menino. Sentiram-se preparadas para acolher a pequena e logo arrumaram o quarto, montaram o bercinho, compraram roupinhas cor de rosa. A casa agora teria cinco mulheres e seria ainda mais cheia de música, de confissões de amores que não deram certo, de risadas intermináveis no sofá.
No dia do nascimento, todas as irmãs foram ao hospital para acompanhar o parto, mas sua mãe ficou sozinha em casa, preferiu assim. Foi ao açougue e depois passou rapidamente no mercadinho do bairro. Já em casa, picou os tomates maduros, descascou alguns dentes de alho, separou as partes do frango. Preparou o macarrão esperando o frango cozinhar no molho, enquanto vivia a expectativa de ser avó, de aguardar novamente uma criança nascer. Foi assim com suas três meninas. Um dia antes de gerar cada uma, mesmo com o barrigão, limpava toda a casa, encerava o chão e fazia uma travessa de macarrão com frango. Dizia que era desejo, vontade de comer mesmo. Após o nascimento das filhas, voltava para casa e o macarrão ainda estava lá, para saciá-la no jantar de mais alguns dias.
Sofia apareceu ainda de olhinhos fechados, nos braços da mãe novata e de suas duas tias. Na cozinha, ainda de avental, viu as meninas entrarem e sentiu o coração apertado ao constatar que o tempo passou. Sentiu-se imensamente feliz em tornar-se avó e recebeu todas com a mesa posta e o assoalho limpo, como fez há anos atrás. Sozinha, conseguiu fazer seu ritual solitário virar uma tradição de família. E sem saber, criou a melhor forma de celebrar a chegada de uma vida, com uma casa acolhedora e com alimento preparado com carinho.
A única maneira de viver
da melhor maneira
é experimentar o presente.
As lembranças do passado desaparecem
da tão frágil memória.
Nesses tempos,
Não há futuro, nem progresso
Não há história.
O ideal iluminista cala tímido
nas páginas dos livros.
O crescimento agora é íntimo, pessoal.
Das capacidades de linguagem,
habilidades matemáticas, forma corporal.
E sem causa aparente,
a ansiedade aparece e indica em tom confesso
que atos heróicos e personagens românticos
não existem.
Sobrou o indivíduo
e suas causas
Egoístas. Hedonistas.
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