Garantias para a vida

 

- Espera, espera. Esqueci uma coisa lá dentro.

- Já estamos atrasadas, deixa disso.

- Não, é sério, uma coisa importante mesmo.

- Eu tenho um monte de tralha importante na minha bolsinha. Vê aí.

- Nossa, Marcinha, você não tem nem remédio para dor de cabeça, nem absorvente.

- Pra que? Cartão, batom e documento. Nada pode ser mais importante do que isso.

- Ah, pode sim! O meu squeeze!

- Wiskizi? Tão importante que nem sei o que é isso.

- Pois vai logo saber. Volta, volta! Bebo no mínimo dois litros de água por dia e não saio sem meu squeeze.   

- Nanda, não é isso que vai mudar a sua vida...

- Você não lê as pesquisas? Isso é uma baita garantia! Vou viver mais, como os antigos.

- Engraçado, nunca vi ninguém segurando garrafinha de água no álbum da minha avó. Nem ouvi falar que Abraão carregava um squeeze.   

- Não me importa. Eu vou viver mais e você vai se lembrar disso.

- Pelo jeito nem vou estar por aqui...

- É, vai brincando.

- Marcinha, eu não conhecia esse seu lado. Estou sacando, você é do tipo que usa filtro.

- Filtro com hidrante? Quem não usa?

- Ah, nem imagino. Deve ser um suicida!

- São coisas tão simples que a gente faz para garantir a vida

- Marcinha, se tem uma coisa que a gente não controla é a vida!

- Pelo menos eu dou o meu melhor.

- Faz bem, pensa controlar o futuro, mas a verdade é que uma hora ou outra ele escapa! Deixe-me adivinhar: tem uma previdência?

- Não, isso não!

- Ufa...

- É a empresa que paga para mim.

- Ah, para o bem-estar do seu centenário.

- Isso, isso.

- Amiga, vou fazer o retorno e você pega o seu squezze.

- Quer que eu encha um pra você?

- Não, que isso!

- Não quer se assegurar de que vai viver mais?

- Não, é que estou economizando água para os meus filhos.

 



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 00h09
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Alguns pensamentos

 

Que idéia perturbadora: buscar ser autêntico! Talvez seja impossível rastrear o que eu realmente penso: estas idéias são minhas? O que faço para ser diferente baseia-se no oposto do modelo dos “iguais”. E então, já não é autêntico, é um avesso provocativo. E parece ser tão natural, todos em busca do mesmo estilo de vida. Não lhe parece intrigante pensar que a idéia de sucesso se traduz em um mesmo modelo para todas as pessoas? Sim, urbanos e do campo, jovens e velhos, liberais e conservadores. Oras, não existem mais em nossa sociedade regras explícitas ou documentadas sobre isso: para o casamento, a pertença da mesma classe; o trabalho e o acúmulo de capital como eram pensados pelos burgueses. Ou existem? Em quais discursos e princípios elas estão? E o mais provocativo: por que todos aderem?

E estou falando isso porque tenho que expressar a minha angústia. Do imediatismo. Do imperativo do sucesso. É a grande encruzilhada do nosso tempo. Muitos vivem a este modo como se fosse o único e concebível. São tão apegados a estes princípios que não podem distanciar-se de tal realidade para fazer uma análise crítica. Estão dentro. Alguns poucos a renegam completamente. Estes vivem à parte, quase marginalizados. São vistos como fracassados. E alguns outros vivem no limiar. Como eu, sinto uma imensa vontade de ser livre, não me relaciono com o tempo como a maioria, não priorizo o futuro em vez do presente, não acho que o que acabou não deu certo. Contudo, ainda assim não consigo manter estes princípios. Como no limbo, oscilo entre dois paradigmas. Ensaio seguir o que sinto, mas é difícil. O outro fala ao ouvido.



Escrito por Escrito Mary/Sílvia às 00h07
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